Inland Empire - spoiler traseiro
Há filme longos demais. Explicativos demais.
E há filmes em que lhes falta a conexão. Para toda a gente perceber. Ou uma cábula com a ordem correcta. [Ainda me lembro de uma R. Sanchas - supostamente brilhante aluna - dizer que não percebia o Pulp Fiction (e com esta boca-revelação, que podia gentilmente guardar para mim, vou acabar no purgatório!)]
Bem, mas adiante. Os filmes do David Lynch, normalmente, são exactamente o segundo caso - aquele em que falta uma cena ou duas para percebermos a relação entre as cenas todas.
Mas este Inland Empire, my God... eu diria que faltam outras duas horas e meia para percebermos a história toda. O que se compreende, tendo em conta que o próprio David Lynch disse:
"I’ve never worked on a project in this way before. I don’t know exactly how this thing will finally unfold... This film is very different because I don’t have a script. I write the thing scene by scene and much of it is shot and I don’t have much of a clue where it will end. It’s a risk, but I have this feeling that because all things are unified, this idea over here in that room will somehow relate to that idea over there in the pink room."
É mesmo isso. Até nós podemos tentar fazer a teia. É entertenimento. É cinema. É um género como outro qualquer. Há quem goste, há quem não goste. Eu, eu tenho dias.
Temos personagens e caras conhecidas. Temos os coelhos de outro projecto do Lynch, temos aparições fantasmas (cameos - aprendi hoje) da Noami Watts (não vi), do Ben Harper (não vi), da Nasstassja Kinski (assutadora), da morena do Muholland Drive, do macaco, etc.
Temos diálogos totalmente disparatados, como convém. Daqueles que o Lynch deve ter ouvido no café, antes de ir fimar ("a minha prima tem um buraco da vagina ao intestino e o bilhete para Pomona custa $3,50")...
Mistura Europa de Leste dos anos 20, e contos tradicionais de terror, com Europa do Leste dos tempos de agora e tráfico de mulheres. Daí, salta para as putas da Sunset Boulevard e para os mitos urbanos de Hollywood. Filmes assombrados. Contos fantasmagóricos. E sitecoms de culto. Também pega, como habitualmente, naquela malta marginal (freaks do circo, médiuns, putas e sem abrigo). E beijinhos entre gajas. Claro.
E viaja. Ora no tempo, ora no espaço, ora na dimensão.
Ontem-hoje-amanhã-hoje-ontem...
Presente-futuro-presente-passado-presente-passado-futuro-presente-futuro-já não sei bem que tempo é...
Filme-realidade-filme-realidade-outro filme-realidade-já me perdi...
Casa fina real - estúdio e cenário - cenário e casa - casal real - casa antiga - rua polcaca - casa polca - floresta polaca - rua americana - estúdio - hotel americano - hotel polaco - casa fina do filme, mas real - estúdio - cave do estúdio - outro estúdio - sala de cinema - já estou tonta...
É um autêntico Cubo de Rubik em película. E é claro que me perdi. E acho que o Lynch também não se preocupou em pôr aquilo muito "entendível".
Mas também não é para ser. Se há quadros com relógios a derreter, porque é que não pode haver um filme assim? Em que não bata, completamente, a bota com a perdigota?
Aliás, isto é a mega-mente do homem a funcionar em filme digital. Filmada.
Mal comparado, é a descrição sumária e relatável do que passa na cabeça de alguém quando se põe a imaginar coisas. Depois de me ter acontecido "isto", percebi que nem tudo era facilmente explicável em palavras e conexões compreensíveis aos outros. Sem prejuízo de fazerem sentido a mil à hora nos nossos neurónios.
Não posso dizer que tenha adorado. Nos últimos 20 minutos já não tinha posição na cadeira e já estava cansada de tanta confusão. Mas é brutal! E tenho de ver outra e outra e outra vez.
Sodoku de imagens.





6 comentários:
Por muito que me esforce, não gosto do senhor Lynch. Estou careca (salvo seja) de ouvir que o homem é um génio e blablá. O que acabas de descrever é aquilo que eu não gosto no cinema e que resumo com a etiqueta de «pseudo»: incompreensível, chato, longo, mas um monstro sagrado.
Houve um único filme dele de que gostei. Uma História Simples (Straight Story). E é a isso que ele devia ater-se. Mas depois vinha a crítica e já não o achava brilhante, mas um simples contador de histórias - e eu, que não entendo qual é o mal e se não é suposto o cinema fazer isso mesmo.
Lol! Straight Story! Também gostei.
É o que eu digo, há espaço para tudo. E, como é óbvio, cada um sabe do que gosta ou não gosta. Se calhar estavam à espera que o Lynch fosse lynchiano (as in críptico) e, nesse caso, não foi.
É simplesmente uma maneira diferente de fazer cinema. De filmar coisas. Me gusta. Com jeitinho!
Mal comparado, é como comida exótica - comer gafanhotos. Ou música marada - trance. Eu é mais filmes. LOL!
Lynch = comer gafanhotos.
Eu não arranjaria melhor comparação. :)
LOL! Não negue à partida uma ciência que desconhece!!! LOL!
(Eu nunca comi gafanhotos, e, na verdade, não planeio experimentar; Mas nunca se sabe!!! Com comidas sou mais esquisita que com filmes. Como dá para ver pelos posts mais recentes! Aliás, tem tudo a ver, Lynch e Spiderman! LOL! Aposto que ele conseguia filmar uma cena intermédia para delinearmos a relação).
bem... e eu q tenho aquele pequeno problema com o sr lynch... enfim... os meus sonhos são banais... não dá para tanto!
Pois, já yo, tenho uns sonhos um bocado à frente, como sabes... Sendo o último parir uma mini-lagosta, tipo camarão ou assim... No comments, please!
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