Não é fácil
Não sei se era do período, se não. A verdade é que na última Sexta-feira estava particularmente sensível a certos estímulos visuais e auditivos, que me puseram atordoada. (Ah, e a enxaqueca que persistia desde a noite anterior e que durou até Domingo também deve ter ajudado).
# 1
Ia eu, toda lampeira, Rua Augusta a baixo e oiço gritos: "Ai, ai, socorro". Quando reparo de onde vinham os pedidos de ajuda, vejo um dos habituais pedintes lá da zona (já meio velhote, moreno, bigode, gorro todo coçado, perneta ou coxo), deitado na calçada, com um 50Cent a cuspir-lhe em cima, a apontar, com a mão enviesada, e a dizer: "Motherfucker, vais morrer assim! É bem feito. Sozinho, sem ninguém! motherfucker! Eu mato-te!".
Perante a apatia das muitas pessoas que passavam e nem paravam, armei-me em chica esperta e fui-me por especada a 3 m da cena, a olhar fixamente para o gajo, que não parava de cuspir e ameaçar o sem-abrigo.
Como eu parei, começaram outras pessoas a parar. O poder do olhar. Até que oiço a explicação da cena toda. O jovenzinho atira-lhe com umas moedas (com força), o homenzinho continua a gritar ("Não me batas, ai, ai, ai!") e oiço isto: "Motherfucker de merda, vais morrer sozinho, sem ajuda. Então dinheiro de preto não te serve, é? Dou-te uma esmola e tu de pretos não queres dinheiro, é? Motherfucker. Vais arder no Inferno."
Damn. Escusado será dizer que segui o meu caminho. Tortuosamente.
# 2
De volta do que tinha ido fazer, subindo agora a Rua Augusta (ia à procura de sol, mas já não havia), passo pela senhora ceguinha que canta fados e toca sininhos. À medida que ia a passar por ela, cruzou-me com duas míudas que iam a descer e oiço:" Então? Esta mulher já tem cds editados, já apareceu em "n" sítios e continua aqui a pedir esmola?"
Caraças. Eu bem reparei num cd dela em cima das mamas.
# 3
Last but not least, parada no sinal vermalho da Avenida Estados Unidos da América, olho pelo espelho retrovisor e vejo um senhor, que não devia ter mais que 35, enorme. Num Clio. O carro era pequeno para ele. Visivelmente minúsculo, aliás. E eu fiquei cheia de pena por causa do senhor, que estava entalado entre o volante e o assento, , com um ar extremamente abatido, e apertado, a regressar, provavelmente, para casa.
Chiça, pá. Fiquei incomodada. Coitado do homem. O que é que eu podia fazer por ele? Já fico assim quando passo, de manhã, pela paragem do autocarro, cheia de gente a tiritar...




3 comentários:
Se há poças ao pé de uma paragem eu abrando, porque sei bem o que é quando vem um carro e nos enche de lama. Mas não consigo deixar de me sentir contentinha quando passo de carro por uma paragem cheia de gente... é mais forte que eu!
Mazona! LOL! eu não é contentinha, é sortuda. Sinto-me uma sortuda.
Eu sinto-me... simplesmente... cheia de vontade de dar boleia a toda a gente!!!!
E em relação ao post... "coisas dos nossos dias"....
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