quarta-feira, abril 26, 2006

Teme a velhice porque nunca vem só


"Toda a gente desejaria viver muito tempo, mas ninguém quereria ser velho."
Jonathan Swift

A idade não perdoa. E, se ninguém quer ser velho, também nem ninguém quer morrer novo... Mas esquecem-se de umas quantas coisas. Como diz o ditado popular, a velhice imprime mais rugas no espírito que no rosto.

Fui visitar a minha Tia "emprestada" ao lar. Está lá há um ano e tal, presa a uma cama. AVCs tiraram-lhe o andar, a fala, a postura, a força e um pouco mais da sanidade mental de uma pessoa com 90 anos. Já nem falo do resto. Das outras doenças que também lhe atacam o corpo.

A velhos poucos chegam, mas de velho ninguém passa, diz outro ditado. Mas há maneiras e maneiras de passar a velhice. Esta parece-me atroz.

Ver uma pessoa, que viveu a vida toda cheia de garra e energia, que fazia do trabalho a sua bandeira ficar tão diminuida física e psicologicamente deixa-me de rastos.

A minha "TiaT." criou-me. A mim, ao meu irmão e a dois sobrinhos dela. Pelo menos, no meu tempo. Houve mais. Eu vivia no 6º Esquerdo, ela no 4º Direito, do n.º 37 da Rua de Campolide. Eu adorava lá estar. Era a casa do meu Padrinho e da minha Tia T.! Memórias muito felizes.

Era ela que, todos os dias, me ia buscar ao Externato do Parque com uma carcaça com manteiga para eu comer pelo caminho. À quarta-feira, dia em que não havia aulas à tarde, a minha mãe ia-me buscar e ela gostava de me fazer o almoço.

Eu fazia questão de jantar lá sempre (e não em casa. Eu adorava os cozinhados dela. Gostava de ir com ela para todo o lado e ela gostava de nos levar para onde quer que fosse. Foi com ela que andei a primeira vez de autocarro (o 18 para Campo de Ourique, Cemitério dos Prazeres), que andei no Elevador da Glória e que andei de comboio. Que me lembre, pelo menos.

Adorava brincar lá em casa, eu e os outros míudos. Construir tendas de cobertores, fazer aviões de papel para acertar na varanda do Sr. António, subir às paredes ao pé da dispensa, qual macacos. Gamar pastilhas Gorila da prateleira alta da dispensa.

Ela conheceu-me com dias, sublinhe-se. Os meus pais trabalhavam de dia e ainda andavam a estudar na faculdade, à noite, e era ela que ficava comigo.
Bem. Continuando. O meu feriado focou-se em ir visitá-la. Lá, ao lar em Campolide.

Um calor inesperado. Duas horas à espera que o meu irmão acordasse, tomasse banho e se dignasse a vir comigo.

Chegada lá, aquele ambiente de sítio onde depositam as pessoas de idade. O pessoal necessário (a comentar um homem, que lá deixou a mãe de manhã, e nem teve vergonha na cara ao dizer que ia deixá-la para ir gozar o feriado).

O habitual. Umas chamam pela mãe. Outras chamam pela Maria, quem quer que ela seja. Outras pedem ajuda para descer no elevador. Outras pedem só atenção. Mais senhoras que senhores. Mas todos voltam a meninos. Lembram-se melhor , como se estivessem mais perto (se calhar, estão) da mãe. É estranho. Estranho.

Subo para o andar dos acamados. Lá está a Tia T. deitadinha. Mal chego, sorri, à maneira dela, e começa com aquele discurso imparável de quem não tem ninguém com quem falar o dia todo e de quem já não distingue bem a realidade dos sonhos.

Oscila entre acontecimentos reais e coisas imaginadas. Confunde datas e pessoas. Mas a parte mesmo má é quando começa a dar voz às alucinações de quem está muito tempo, injustamente, sozinha e confusa, entregue à imaginação. Começa a contar uma história, que teria acontecido "no outro dia", de a levarem para uma toca escura, de bichos a picarem-na no pés e outras torturas assim... Até custa ouvir. Tento desviar a conversa para coisas mais prazenteiras...

Como é possível? Que maldade, a velhice. Parece que ela vive um pesadelo intermitente.

Ao menos, podia delirar com coisas boas. Mas é logo com coisas más. O futuro não reserva ajudas neste sentido? Tipo "Vanilla Sky" ou soluções do género?


Depois, não se consegue mexer. As mãos deixaram de obedecer ao cérebro e só o polegar e indicador da mão direita é que ainda funcionam. O corpo, que nunca foi mais que magro, está reduzido a pele e osso. Como ela diz, os ossos dela resolveram vir ver o que é que se passa. Há um diatado que diz que na velhice, ou é o corpo que vence o espírito, ou é o espírito que vence a carne. Aqui, parece que estão em disputa renhida.

E não merece. Não merece este fim de vida. (Sim, fim de vida, porque o é).

Começo a achar que, a existir purgatório, ele é aqui.

A vida é muito injusta, às vezes.


Depois de vir de lá, resolvi levar a minha avó a passear ao jardim. Como está meia coxa, tem medo de ir sozinha e gosta sempre de ir com companhia. A boa acção do dia.
Lá ia ela a queixar-se e eu a dizer-lhe que tinha ela muita sorte.


Pelo meio, vejo uns pais, já na casa dos 60 e tal, com uma filha, quiçá, com a minha idade, visivelmente deficiente motora. Provavelmente, também mental. E o meu estado de espírito agrava-se quando me ponho a pensar - depois da tarde que tive - quem é que vai tomar conta daqueles pais daqui a anos e quem é que vai ficar a tomar conta da filha deles. Isto é justo?

E depois andamos para aqui, nós, a queixarmo-nos. De ninharias. Do tempo. Dos humores menstruais. Do apetite. Do fastio. Do filme. Da tv. Bate na boca. Bate na boca, digo-me. De mim para mim.
Batam-me na boca.

4 comentários:

Soph disse...

Se morasses mais perto ia ter contigo e dizia-te:

"Caramba, miúda!!! Tenho os mesmos pensamentos quando vou visitar a minha tia!!!"

Verdadinhaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!

A Vida é assim....

Não podemos dar muitas voltas...

Mas antes estar "sozinha acompanhada" que... "sozinha abandonada"!

Lembro-me daquelas pessoas que morrem sozinhas em casa e as outras pessoas só se apercebem disso dias depois quando começam a "cheirar".... lembro-me daquelas pessoas que vivem sozinhas nas aldeias com filhos no estrangeiro que só se abraçam em Agosto... lembro-me de pessoas que vivem em caixotes do lixo... em varandas... em escadas... em becos... sozinhas... completamente sozinhas... até à morte...

E quando penso nisso... lembro-me de CUIDAR MELHOR DE QUEM ENVELHECE POR PERTO...

ricardo disse...

oi.
tou aki a tentar comentar, mas não sei o que dizer...disseste tudo...percebo perfeitamente como te sentes...tenho uma situação familiar parecida...enfim,a vida é mesmo assim...o melhor é nem pensar porque sofremos por antecipação.

bjoka

nat disse...

também estou assim... sem saber o que dizer, para além de dizer que é triste.

:(

Mariana disse...

Minha krida, tb a tua Tia T. faz parte das minhas recordações e também em parte recebi os miminhos dela, quando ia a tua casa. Não me esqueço que até há bem pouco tempo sempre me tratou por "menina mariana" (como a Veva da telenovela) e que sempre achei que ela era da família mesmo que não fosse de sangue. como sabes também eu tenho uma situação idêntica, não tão agravada, e sim, tudo isso me custa e compreendo-te na perfeição. a vida nem sempre é justa e se pudéssemos imaginar um futuro para a tua Tia T. de certeza que não era este. Mas, infelizmente, está para além de nós. Acho que vou ter de postar qualquer coisa relativamente a isto.