Resquícios de má pessoa
Que nunca fui. Nem nunca fomos.
Magnólia Café do Saldanha, 18h. Primeiro de Maio tempestuoso, mesas todas ocupadas, menos uma. Somos três, mas só lá está uma cadeira. Há várias cadeiras com malas, à volta das outras mesas, com clientes.
Ranheta: Há uma mesa, mas não há cadeiras.
Magnólia Café do Saldanha, 18h. Primeiro de Maio tempestuoso, mesas todas ocupadas, menos uma. Somos três, mas só lá está uma cadeira. Há várias cadeiras com malas, à volta das outras mesas, com clientes.
Ranheta: Há uma mesa, mas não há cadeiras.
Facada: Não há cadeiras, o quê? Olha. - dirigindo-se a uma menina que está ao computador, sem consumir nada, com a malinha, o casaco e a merdinhas todas em cima de uma cadeira, a assistir à cena e a ouvir a conversa. - Desculpe, mas está ocupada, esta cadeira?
Idiota: Er... Er... Não...
E a idiota, enjoada, a muito custo, lá levanta o cuzinho adolescente, abanicando o colar com flores de plástico brancas, e retira o casaquinho manhoso e as coisinhas pseudo-freaks na cadeira.
Cocó: Ainda falta uma.
Tiazinha: Tem aqui uma. - Responde uma das duas senhoras sentadas na mesa colada à nossa, que também, pela proximidade, assistiram e ouviram, em primeira mão, à cena toda. Lá tiram as trouxas e lá lanchamos.
Depois do lanche, e porque ainda não há lei que a proiba, sacámos do cigarrinho.
Tiazinha: Olhe - em voz bem alta e irritante - o fumo está a vir todo para aqui. - Como se nós dominássemos a corrente de ar.
Ranheta: Pois, não eu não me posso chegar para lado nenhum. [Porque a nossa mesa estava encostada ao balcão de vidro e a delas estava encostada às nossas costas, em vez de estar ligeiramente mais afastada, como devia.]
Tiazinha: Parece impossível! O fumo está a vir para cima de nós.
Ranheta: Pois, paciência. Tenho muita pena. Mas aqui pode-se fumar. E o espaço para não-fumadores é ali em cima. - Onde, aliás, já havia mesas vazias...
Tiazinha: Ainda por cima, ainda vagámos a cadeira.
Foi nesta altura que entrou em acção a meditação transcental. As tiazorras não estavam a comer. Não estavam a beber. Estavam sentadas no café, à conversa. Numa mesa deslocada do sítio onde devia estar. Coladas às costas de outras cadeiras. Não gostavam do fumo. Mas foram-se sentar no sítio dos fumadores em vez de irem procurar mesa no sítio dos não-fumadores.
E ficam ofendidas porque "ainda vagaram uma cadeira". Como se a cadeira, que aquelas MULAS vagaram, fosse delas. Como se as pouchettes que lá estavam pousadas tivessem lanchado, como nós lanchámos. Como se não fosse obrigação delas vagar a puta da cadeira!!! Como se fosse proibido fumar ali! Como se eu fosse o Boreas, o Zéfiro, o Euro ou o Noto e dominasse a corrente de ar! Ou tivesse os dotes do Copperfield e pudesse pôr-nos, a nós e à mesa, para lá da parede!
Mas fiquei calada. Vá lá, que fiquei calada.Porque a verdade é que, quem está mal, muda-se. Era o que eu faria. E também teria facilitado se a abordagem a Tiazinha tivesse sido noutro tom. Mas não foi. Lixou-se.
E, sublinhe-se, para que dúvidas não hajam: em tempo algum, apesar de ser relativamente chato, estar a fumar ali era proibido. E lex, dura lex, sed lex.





5 comentários:
Mas não ficaste com aquela esganazinha de dizer das boas? Eu ainda fico horas depois a pensar em respostas de truz, daquelas que só ocorrem mesmo depois (bastante depois) do incidente.
Ui!!! Então não fiquei? Só me aptece ir para lá à espera que elas apareçam para repetir o "incidente" e dizer-lhes tudo o que me lembrei e ensaiei até ao momento!!!!
Porque é que a pessoa não consegue coordenar logo uma frase daquelas? Porquê? E porque é que ficamos a remoer as coisas horas depois... quando as outras pessoas não se lembram sequer?
Ai, lembram... Lembram!!! LEMBRAM!!! Cada vez que lhe mandarem fumo para cima, ela vai-se lembrar de nós!!!
Nem que vá lá no Domingo à procura da tiazorra coxa. Ah, sim... Er...
Did I mention que ela estava de canadianas? LOL!...
Também só me disseram depois!!
Mas se teve bracinhos para subir até aquele sítio, também tinha bracinhos para subir mais três degraus e ir para a zona de não-fumadores. Até tinha sítio para pousar a bengala - em vez de estar no meio do café, encostada às nossas costas!
Ahaha. Sim! Se querem integração façam por isso!
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