sexta-feira, janeiro 26, 2007

Votando em consciência

Não vou fazer aqui campanha pelo inequívoco SIM que vou votar.

Não vou comentar os cartazes manhosos da campanha do SIM, que mais parecem ser a favor do NÃO e confundem legalização com despenalização.

Não vou comentar os cartazes do NÃO, que falam de questões monetárias e de financiamento, com o dinheiro dos impostos, de "clínicas de aborto". (Embora não deixe de ser inacreditável frisarem esse ponto egoísta, quando o ponto que leva milhares de mulheres a fazer abortos clandestinos é, exactamente o reverso da medalha, a falta efectiva de condições económicas para criar um filho...).

Vou-me abster, a muito custo, de insultar aqueles que comparam a prática do aborto ao terrorrismo ou ao enforcamento do Saddam Hussein.

Vou, em vez disso tudo, contar-vos a razão de consciência de um "não", que vai votar NÃO... por causa de mim. O meu Pai.

Quando estavamos à mesa, a discutir o assunto, eu e o meu irmão ficámos chocados com a decisão do meu Pai. Pessoa tão liberal, tão aberta, tão moderna, tão defensora dos direitos humanos, tão actual, tão consciente, estava-nos a dizer que ia votar NÃO?

Sabiamos que não era um voto católico, porque, à parte das crenças individuais, tenho a sorte de ter uns Pais que sabem distinguir, e conjugar muito bem, fé, força, factos e o dia-a-dia.


Não percebia como era possível.

Quando a explicação veio, engoli em seco. Do fundo do coração, o meu Pai disse que, para ele, uma vida vale sempre mais que uma morte. Uma vida a mais será sempre, de alguma forma, algo positivo. E que as melhores coisas que lhe aconteceram na vida foram os nossos nascimentos, o meu e o do meu irmão.

Que eu sei, não foram planeados.

Que eu sei, foram provas de fogo.

Que eu sei, foram tempos complicados.

E cá estou eu. E cá está o mano. E não era por isso que os meus Pais voltavam atrás e faziam de outra maneira. Mais fácil. Mais propícia. Mais adequada. Mais planeada ou esperada.

Como posso eu rebater este argumento? Este voto NÃO, de convicção, é óbvio que não consigo contrariar com factos e argumentos.


Com aqueles de que é uma questão de sáude pública - antes de ser uma questão legal - alterar a lei.


Com aquele de que eles se fazem, todos os dias, a todas as horas, em clínicas finas, em casas privadas, com medicamentos, com agulhas, com "acidentes", abortos clandestinos.

Com aquele de que toda a gente sabe onde se fazem.

Com aquele de que, quem sofre com o presente enquadramento legal, são as pessoas mais necessitadas.

E muitos, muitos mais.

A verdade, aliás, é que, ainda no outro dia, dei por mim a pensar que conheço gente que, de alguma forma, está melhor hoje (diria mesmo, gente que foi salva) porque teve o bebé que resultou da gravidez não planeada, e pouco, ou mesmo nada, desejada.

Mas adiante. A despenalização é essencial.

Friso ainda que não percebo porque é que o PS, com maioria absoluta, não muda logo a lei. Mas isso dão outros quinhentos...



Resta-me observar como a harmonia instrínseca das coisas resolve as questões: a minha Mãe anula o voto do meu Pai. Ou, de outra perspectiva, vice-versa.


3 comentários:

Mosqueduda disse...

Compreendo a tua engolidela em seco..mas para mim há um simples argumento que é incontornável: o direito de escolha de cada um. E, neste caso concreto, alterando-se a lei em vigor a escolha não é totalmente arbitrária, será delimitada de acordo com o que ainda nos parece indisponível.dar-se-á a oportunidade de escolher de forma equilibrada e, por isso, insusceptível de se tornar penalizável.

Soph disse...

Fiquei em "pele de galinha"... sabes quando os pêlos da cara se arrepiam????

... e mesmo sem o conhecer... GOSTO DO TEU PAI, miúda!

O que ele vos disse... foi LINDO e Lindo e lindo e LINDO... e tude tudo e tudo...

ADOREI!!!

Muito Bonito mesmo... com TODO o coração...

O Homem arrepiou-me!

Linda declaração...

... e tenho dito!

Happy Family!

nat disse...

Infelizmente pela primeira vez desde os 18 nao vou poder ir votar :(

Mas ja mobilizei quem votasse por mim, afinal, ja e tempo de alguma coisa ser alterada.

Mas compreendo o ponto de vista do teu pai, e percebo que se torne complicado decidir perante tal argumento.