Votando em consciência
Não vou fazer aqui campanha pelo inequívoco SIM que vou votar.Não vou comentar os cartazes manhosos da campanha do SIM, que mais parecem ser a favor do NÃO e confundem legalização com despenalização.
Não vou comentar os cartazes do NÃO, que falam de questões monetárias e de financiamento, com o dinheiro dos impostos, de "clínicas de aborto". (Embora não deixe de ser inacreditável frisarem esse ponto egoísta, quando o ponto que leva milhares de mulheres a fazer abortos clandestinos é, exactamente o reverso da medalha, a falta efectiva de condições económicas para criar um filho...).
Vou-me abster, a muito custo, de insultar aqueles que comparam a prática do aborto ao terrorrismo ou ao enforcamento do Saddam Hussein.
Vou, em vez disso tudo, contar-vos a razão de consciência de um "não", que vai votar NÃO... por causa de mim. O meu Pai.
Quando estavamos à mesa, a discutir o assunto, eu e o meu irmão ficámos chocados com a decisão do meu Pai. Pessoa tão liberal, tão aberta, tão moderna, tão defensora dos direitos humanos, tão actual, tão consciente, estava-nos a dizer que ia votar NÃO?
Sabiamos que não era um voto católico, porque, à parte das crenças individuais, tenho a sorte de ter uns Pais que sabem distinguir, e conjugar muito bem, fé, força, factos e o dia-a-dia.
Não percebia como era possível.
Quando a explicação veio, engoli em seco. Do fundo do coração, o meu Pai disse que, para ele, uma vida vale sempre mais que uma morte. Uma vida a mais será sempre, de alguma forma, algo positivo. E que as melhores coisas que lhe aconteceram na vida foram os nossos nascimentos, o meu e o do meu irmão.
Que eu sei, não foram planeados.
Que eu sei, foram provas de fogo.
Que eu sei, foram tempos complicados.
E cá estou eu. E cá está o mano. E não era por isso que os meus Pais voltavam atrás e faziam de outra maneira. Mais fácil. Mais propícia. Mais adequada. Mais planeada ou esperada.
Como posso eu rebater este argumento? Este voto NÃO, de convicção, é óbvio que não consigo contrariar com factos e argumentos.
Como posso eu rebater este argumento? Este voto NÃO, de convicção, é óbvio que não consigo contrariar com factos e argumentos.
Com aqueles de que é uma questão de sáude pública - antes de ser uma questão legal - alterar a lei.
Com aquele de que eles se fazem, todos os dias, a todas as horas, em clínicas finas, em casas privadas, com medicamentos, com agulhas, com "acidentes", abortos clandestinos.
Com aquele de que toda a gente sabe onde se fazem.
Com aquele de que, quem sofre com o presente enquadramento legal, são as pessoas mais necessitadas.
E muitos, muitos mais.
A verdade, aliás, é que, ainda no outro dia, dei por mim a pensar que conheço gente que, de alguma forma, está melhor hoje (diria mesmo, gente que foi salva) porque teve o bebé que resultou da gravidez não planeada, e pouco, ou mesmo nada, desejada.
Mas adiante. A despenalização é essencial.
Friso ainda que não percebo porque é que o PS, com maioria absoluta, não muda logo a lei. Mas isso dão outros quinhentos...
Resta-me observar como a harmonia instrínseca das coisas resolve as questões: a minha Mãe anula o voto do meu Pai. Ou, de outra perspectiva, vice-versa.




3 comentários:
Compreendo a tua engolidela em seco..mas para mim há um simples argumento que é incontornável: o direito de escolha de cada um. E, neste caso concreto, alterando-se a lei em vigor a escolha não é totalmente arbitrária, será delimitada de acordo com o que ainda nos parece indisponível.dar-se-á a oportunidade de escolher de forma equilibrada e, por isso, insusceptível de se tornar penalizável.
Fiquei em "pele de galinha"... sabes quando os pêlos da cara se arrepiam????
... e mesmo sem o conhecer... GOSTO DO TEU PAI, miúda!
O que ele vos disse... foi LINDO e Lindo e lindo e LINDO... e tude tudo e tudo...
ADOREI!!!
Muito Bonito mesmo... com TODO o coração...
O Homem arrepiou-me!
Linda declaração...
... e tenho dito!
Happy Family!
Infelizmente pela primeira vez desde os 18 nao vou poder ir votar :(
Mas ja mobilizei quem votasse por mim, afinal, ja e tempo de alguma coisa ser alterada.
Mas compreendo o ponto de vista do teu pai, e percebo que se torne complicado decidir perante tal argumento.
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